Você tem medo? Do quê?
O que te faz sentir?
O que te faz sangrar?
Qual é a ferida que dói mais?
Não, eu não quero saber o que você fez semana passada, não quero saber o nome dos teus amigos. Não quero que você esqueça seu olhar docemente pousado no meu... Não, não quero seu sorriso mais gentil, não quero seu gesto mais honesto, não quero seu toque, seu carinho sua amizade, não quero a calmaria dos teus braços, me esquecer no teu abraço, achar que o mundo vale a pena quando estou perto do teu calor. Não quero teus elogios, por favor, não tente fazer com que eu me sinta bem. Não, eu não quero teus conselhos, quem te deu o direito de tentar me fazer bem? Não quero tua ligação, que chega sempre na melhor hora. Não quero tua calmaria, que revira todo o meu mundinho. Não quero ouvir tuas músicas, que ressuscitam meus fantasmas, aqueles que um dia foram meus melhores companheiros, mas que há muito andam emudecidos, é, são aqueles que tentam me mostrar a doçura de viver, a leveza de ser, sem se importar, são aqueles fantasminhas camaradas que me fazem chorar olhando a lua e achar que vale a pena a creditar em acasos, vale a pena acreditar em pessoas, vale a pena acreditar em momentos certos, aprendizado, amadurecimento... Ah! Eu não quero nada disso. Por que não? Por que eu sou confusão, não vem dizer que não, você ainda não viu nada, nem quero que veja. Não, dessa vez eu não quero revelar meu lado mais sombrio, aquele lado transgressor do qual eu tanto me orgulho, meu defeito que mantém meu edifício interior de pé. Não, não queira, se poupe. Então por favor, se afaste, por que não sei fazer isso, seja duro, eu sou assim mesmo, covarde. Sou abismo, sagitário, centauro, não sou de rodeio, se eu me apaixonar por você vou arrumar um jeito de te ferir, acertar feito flecha a única beleza que resta, se alguma beleza restar. Filha de Quíron com seu arco apontado para o corpo do escorpião, só por vingança. Poderei também ser sua cura, caso saiba me domar, caso contrário nem a eternidade da imortalidade fará a ferida fechar.
Letícia Almeida
"Algumas vezes eu fiz muito mal para pessoas que me amaram. Não é paranóia não. É verdade. Sou tão talvez neuroticamente individualista que, quando acontece de alguém parecer aos meus olhos uma ameaça a essa individualidade, fico imediatamente cheio de espinhos - e corto relacionamentos com a maior frieza, às vezes firo, sou agressivo e tal. É preciso acabar com esse medo de ser tocado lá no fundo. Ou é preciso que alguém me toque profundamente para acabar com isso."-Caio Fernando Abreu
