domingo, 31 de outubro de 2010

Quando me amei de verdade, compreendi que em qualquer circunstância, eu estava no lugar certo, na hora certa, no momento exato.
E então, pude relaxar.
Hoje sei que isso tem nome... Auto-estima.
Quando me amei de verdade, pude perceber que minha angústia, meu sofrimento emocional, não passa de um sinal de que estou indo contra minhas verdades.
Hoje sei que isso é...Autenticidade.
Quando me amei de verdade, parei de desejar que a minha vida fosse diferente e comecei a ver que tudo o que acontece contribui para o meu crescimento.
Hoje chamo isso de... Amadurecimento.
Quando me amei de verdade, comecei a perceber como é ofensivo tentar forçar alguma situação ou alguém apenas para realizar aquilo que desejo, mesmo sabendo que não é o momento ou a pessoa não está preparada, inclusive eu mesmo.
Hoje sei que o nome disso é... Respeito.
Quando me amei de verdade comecei a me livrar de tudo que não fosse saudável... Pessoas, tarefas, tudo e qualquer coisa que me pusesse para baixo. De início minha razão chamou essa atitude de egoísmo.
Hoje sei que se chama... Amor-próprio.
Quando me amei de verdade, deixei de temer o meu tempo livre e desisti de fazer grandes planos, abandonei os projetos megalômanos de futuro.
Hoje faço o que acho certo, o que gosto, quando quero e no meu próprio ritmo.
Hoje sei que isso é... Simplicidade.
Quando me amei de verdade, desisti de querer sempre ter razão e, com isso, errei muitas menos vezes.
Hoje descobri a... Humildade.
Quando me amei de verdade, desisti de ficar revivendo o passado e de preocupar com o futuro. Agora, me mantenho no presente, que é onde a vida acontece.
Hoje vivo um dia de cada vez. Isso é... Plenitude.
Quando me amei de verdade, percebi que minha mente pode me atormentar e me decepcionar. Mas quando a coloco a serviço do meu coração, ela se torna uma grande e valiosa aliada.
Tudo isso é... Saber viver!!!

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Ah, desisti, vc não vai esquecer. O tempo vai passar, mas esquecimento total não existe e vc sabe muito bem disso. Na verdade é até necessário que essa lembrança, essa chama permaneça sempre acesa dentro de vc, mesmo que branda, talvez ás vezes quase imperceptível. É o tempo faz isso mesmo, torna as coisas mais suaves, não tem como evitar, mas cá entre nós, vc não quer perder esse encanto que molha teus olhos sem motivo ao mesmo tempo que te faz sentir-se incrivelmente viva.

Letícia Almeida

segunda-feira, 25 de outubro de 2010


Há alguns dias, Deus — ou isso que chamamos assim, tão descuidadamente, de Deus —, enviou-me certo presente ambíguo: uma possibilidade de amor. Ou disso que chamamos, também com descuido e alguma pressa, de amor. E você sabe a que me refiro.

Antes que pudesse me assustar e, depois do susto, hesitar entre ir ou não ir, querer ou não querer — eu já estava lá dentro. E estar dentro daquilo era bom. Não me entenda mal — não aconteceu qualquer intimidade dessas que você certamente imagina. Na verdade, não aconteceu quase nada. Dois ou três almoços, uns silêncios. Fragmentos disso que chamamos, com aquele mesmo descuido, de “minha vida”. Outros fragmentos, daquela “outra vida”. De repente cruzadas ali, por puro mistério, sobre as toalhas brancas e os copos de vinho ou água, entre casquinhas de pão e cinzeiros cheios que os garçons rapidamente esvaziavam para que nos sentíssemos limpos. E nos sentíamos.

Por trás do que acontecia, eu redescobria magias sem susto algum. E de repente me sentia protegido, você sabe como: a vida toda, esses pedacinhos desconexos, se armavam de outro jeito, fazendo sentido. Nada de mal me aconteceria, tinha certeza, enquanto estivesse dentro do campo magnético daquela outra pessoa. Os olhos da outra pessoa me olhavam e me reconheciam como outra pessoa, e suavemente faziam perguntas, investigavam terrenos: ah você não come açúcar, ah você não bebe uísque, ah você é do signo de Libra. Traçando esboços, os dois. Tateando traços difusos, vagas promessas.

Nunca mais sair do centro daquele espaço para as duras ruas anônimas. Nunca mais sair daquele colo quente que é ter uma face para outra pessoa que também tem uma face para você, no meio da tralha desimportante e sem rosto de cada dia atravancando o coração. Mas no quarto, quinto dia, um trecho obsessivo do conto de Clarice Lispector “Tentação” na cabeça estonteada de encanto: “Mas ambos estavam comprometidos. Ele, com sua natureza aprisionada. Ela, com sua infância impossível”. Cito de memória, não sei se correto. Fala no encontro de uma menina ruiva, sentada num degrau às três da tarde, com um cão basset também ruivo, que passa acorrentado. Ele pára. Os dois se olham. Cintilam, prometidos. A dona o puxa. Ele se vai. E nada acontece.

De mais a mais, eu não queria. Seria preciso forjar climas, insinuar convites, servir vinhos, acender velas, fazer caras. Para talvez ouvir não. A não ser que soprasse tanto vento que velejasse por si. Não velejou. Além disso, sem perceber, eu estava dentro da aprendizagem solitária do não-pedir. Só compreendi dias depois, quando um amigo me falou — descuidado, também — em pequenas epifanias. Miudinhas, quase pífias revelações de Deus feito jóias encravadas no dia-a-dia.

Era isso – aquela outra vida, inesperadamente misturada à minha, olhando a minha opaca vida com os mesmos olhos atentos com que eu a olhava: uma pequena epifania. Em seguida vieram o tempo, a distância, a poeira soprando. Mas eu trouxe de lá a memória de qualquer coisa macia que tem me alimentado nestes dias seguintes de ausência e fome. Sobretudo à noite, aos domingos. Recuperei um jeito de fumar olhando para trás das janelas, vendo o que ninguém veria.

Atrás das janelas, retomo esse momento de mel e sangue que Deus colocou tão rápido, e com tanta delicadeza, frente aos meus olhos há tanto tempo incapazes de ver: uma possibilidade de amor. Curvo a cabeça, agradecido. E se estendo a mão, no meio da poeira de dentro de mim, posso tocar também em outra coisa. Essa pequena epifania. Com corpo e face. Que reponho devagar, traço a traço, quando estou só e tenho medo. Sorrio, então. E quase paro de sentir fome.


-Caio Fernando Abreu

domingo, 10 de outubro de 2010

"A gente finge que arruma o guarda-roupa, arruma o quarto, arruma a bagunça. Tira aquele tanto de coisa que não serve, porque ocupar espaço com coisas velhas não dá. As coisas novas querem entrar, tanta coisa bonita nas lojas por aí. Mas a gente nunca tira tudo. Sempre as esconde aqui, esconde ali, finge para si mesmo que ainda serve. A gente sabe. Que ta curta, pequeno, apertado. É que a gente queria tanto. Tanto.
Acredito que arrumar a bagunça da vida é como arrumar a bagunça do quarto. Tirar tudo, rever roupas e sapatos, experimentar e ver o que ainda serve, jogar fora algumas coisas, outras separar para doação. Isso pode servir melhor para outra pessoa.
Hora de deixar ir. Alguém precisa mais do que você. Se livrar. Deixar para trás. Algumas coisa não servem mais. Você sabe. Chega. Porque guardar roupa velha dentro da gaveta é como ocupar o coração com alguém que não lhe serve. Perca de espaço, tempo, paciência e sentimento. Tem tanta gente interessante por aí querendo entrar. Deixa. Deixa entrar: na vida, no coração, na cabeça."

- Caio Fernando Abreu

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Depois Daquela Noite

     Saber quando é hora de parar quando os limites são mais fluidos que o ar. Tirar da luz do dia a força pra continuar. Lembrar sempre de um olhar doce e cansado quando sentir medo. Pegar o telefone e discar aqueles números e com a voz tremula fazer a tal pergunta tão temida, será o convite pros fantasmas irem embora. Sonhar e acreditar com todas as forças, lutar com toda coragem, sem ferir ninguém. Criar raízes sem ser estanque. Saber que o mundo cabe aqui no meu coração, e onde eu tiver minha mente em paz será sempre o meu  lar.
    Que sempre existam noites frias e ruas desertas pra que meus medos possam se perder. Que sempre existam surpresas... Hoje não tenho palavras pra expressar minha gratidão, se eu me esforçar pra exprimir o que sinto acabarei me perdendo no emaranhado de dúvidas que isso traz. Por que não dá mais pra acreditar que a vida é um grande acaso, quando você se encontra no último lugar onde imaginaria pisar, quando aquelas pessoas que você sempre imaginou conhecer muito bem e que eram também indiferentes, se mostram verdadeiros baús recheados de tesouros. Quando alguém te convida pra um suco, quando você planejava cortar os pulsos.
    É estranho ser tocada tão lá dentro, ser quase afrontada com tanta simplicidade. Hoje entendo a necessidade de enterrar meus mortos e guardar deles apenas as boas lembranças e guardar só pra mim. A vida ás vezes dói, mas é preciso estar a todo momento preparado, primeiro somos postos a prova pra depois se poder tirar daí uma lição. Não há injustiça quando há liberdade, mas ser livre é coisa muito séria, você poder viver sem regras, mas pra isso é necessário muito equilíbrio e responsabilidade, mesmo que você não queira justificar seus atos, assuma-os. Voar é um estado de espírito e se te disserem que você é louco, que mal tem ser louco quando se é acima de tudo feliz? E vem cá, me diz uma coisa, o que é loucura? É acreditar nas pessoas? É confiar no ser humano? É brincar na chuva, andar descalço, nadar pelado? É entrar em contato? É derrubar os muros e construir pontes? É estar a todo momento pronto pra ouvir, pronto pra aprender, sim, todo mundo tem algo a ensinar, todo mundo tem sempre algo a aprender, me diz isso é loucura? Por que mais parece que o normal é ser superficial, e se for assim, deixa eu enlouquecer, por que pra mim só vale a pena tirar os pés do chão se for pra voar bem alto.

Letícia Almeida (13.09.2010)