segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Tudo vai ser diferente

"Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano,
foi um indivíduo genial. Industrializou a esperança, fazendo a funcionar
no limite da exaustão. Doze meses dão para qualquer ser humano se
cansar e entregar os pontos. Aí entra o milagre da renovação e tudo
começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que
daqui pra frente tudo vai ser diferente."
 -Drummond

Desejo a voce...

"Desejo a você
Fruto do mato
Cheiro de jardim
Namoro no portão
Domingo sem chuva
Segunda sem mau humor
Sábado com seu amor
Filme do Carlitos
Chope com amigos
Crônica de Rubem Braga
Viver sem inimigos
Filme antigo na TV
Ter uma pessoa especial
E que ela goste de você

Música de Tom com letra de Chico
Frango caipira em pensão do interior
Ouvir uma palavra amável
Ter uma surpresa agradável
Ver a banda passar
Noite de lua cheia
Rever uma velha amizade
Ter fé em Deus
Não ter que ouvir a palavra não
Nem nunca, nem jamais e adeus
Rir como criança
Ouvir canto de passarinho
Sarar de resfriado
Escrever um poema de Amor
Que nunca será rasgado
Formar um par ideal
Tomar banho de cachoeira
Pegar um bronzeado legal
Aprender uma nova canção
Esperar alguém na estação
Queijo com goiabada
Pôr-do-Sol na roça
Uma festa
Um violão
Uma seresta
Recordar um amor antigo
Ter um ombro sempre amigo
Bater palmas de alegria
Uma tarde amena
Calçar um velho chinelo
Sentar numa velha poltrona
Tocar violão para alguém
Ouvir a chuva no telhado
Vinho branco
Bolero de Ravel
E muito carinho meu. "
-Drummond

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Porto Alegre, 10 de agosto de 1985 - Caio Fernando Abreu

"... isso que chamamos de amor, esse lugar confuso entre o sexo e a organização familiar..."

Sérgio, não sabia como começar - então comecei copiando essa frase aí de cima, é Caetano Veloso numa entrevista ao JB, vim lendo pelo caminho, não consegui me livrar dela.

Agora estou aqui, escrevendo para você no meu quarto antigo, que minha mãe conserva tal-e-qual, como se eu um dia fosse voltar para casa. E lá se vão - quantos mesmo? - sei lá, quinze vinte anos, qualquer coisa assim.

Chove. Faz frio. É bom estar aqui. Tão bom. Me sinto protegido. Ficamos vendo velhas fotografias, bebendo vinho e rindo muito. Meu irmão Felipe vestiu um modelinho de couro negro e saiu "para dar uma prensa numa caixa de supermercado". Márcia está tão bonita. E Rodrigo, meu sobrinho, que tem dois anos e não parece quase me desconhecer. Deixei-os vendo um filme antigo dos Beatles, Lennon repetindo "don´t let me down" - e agora percebo que meu inglês anda tão precário que não lembro se é d´ont ou don´t.
 
Cansado, cansado. Quase não dormi. E não consigo tirar você da cabeça. Estou te escrevendo porque não consigo tirar você da cabeça. Hesito em dizer qualquer coisa tipo me-perdoe ou qualquer coisa assim. Mas quero te contar umas coisas. Mesmo que a gente não se veja mais. Penso em você, penso em você com força e carinho. Axé.

Foi mau, ontem. Fui mau, também. Menos com você, mais comigo mesmo. Depois não consegui dormir. Me bati pela casa até quase oito da manhã. Teria telefonado para você, não fosse tão inconveniente. Acabei ligando para Grace, pedi paciência, chorei, contei, ouvi.

Não era nada com você. Ou quase nada. Estou tão desintegrado. Atravessei o resto da noite encarando minha desintegração. Joguei sobre você tantos medos, tanta coisa travada, tanto medo de rejeição, tanta dor. Difícil explicar. Muitas coisas duras por dentro. Farpas. Uma pressa, uma urgência. E uma compulsão horrível de quebrar imediatamente qualquer relação bonita que mal comece a acontecer. Destruir antes que cresça. Com requintes, com sofreguidão, com textos que me vêm prontos e faces que se sobrepõem às outras. Para que não me firam, minto. E tomo a providência cuidadosa de eu mesmo me ferir, sem prestar atenção se estou ferindo o outro também. Não queria fazer mal a você. Não queria que você chorasse. Não queria cobrar absolutamente nada. Por que o Zen de repente escapa e se transforma em Sem? Sem que se consiga controlar.

Te escrevo com um cigarro aceso e uma xícara de chá de boldo. A escrivaninha é muito antiga, daquelas que têm uma tampa, parece piano. Tem um pôster com Garcia Lorca na minha frente. Um retrato enorme de Virginia Woolf. E posso ver na estante assim, de repente, todo o Proust, e muito Rimbaud, e Verlaine, Faulkner, Ítalo Svevo, William Blake. Umas reproduções de Picasso. Outras de Da Vinci. Um biscuit com um pierrô tão patético. Uma pedra esotérica ainda de Stonehenge, Inglaterra, uma caixinha indiana. Todos os meus pedaços aqui. E você não me conhece, eu não conheço você. 

Te escrevo por absoluta necessidade. Não conseguiria dormir outra vez se não te escrevesse. Zelda, há também o único romance escrito por Zelda Fitzgerald, a mulher de Scott Fitzgerald, que morreu louca, um incêndio, um hospício. Chama-se "Save me the waltz". "Reserve-me a valsa", não é lindo? Lembra o Brahma, se se dançasse no Brahma. 

Please, save me the waltz. 

Fiz fantasias. No meu demente exercício para pisar no real, finjo que não fantasio. E fantasio, fantasio. Até o último momento esperei que você me chamasse pelo telefone. Que você fosse ao aeroporto. Casablanca, última cena. Todas as cartas de amor são ridículas. Esse lugar confuso de que fala Caetano. E eu estava só começando a entrar num estado de amor por você. Mas não me permiti, não te permiti, não nos permiti. Pedro Paulo me dizendo no ouvido "nunca vi essas luz nos seus olhos". 

Eu não queria saber.Tão artificial, tão estudado. Detesto ouvir minha voz no gravador ou ver minha imagem em vídeo. Sôo falso para mim mesmo. A calma, o equilíbrio, as palavras ditas lentamente, como se escolhesse. Raramente um gesto, um tom mais espontâneo. Tão bom ator que ninguém percebe minha péssima atuação. 

Você compreende tudo isso? 

Pausa. Campainha. O jornal de domingo. Desço, outro chá de boldo. Um comentário de Rubens Ewald sobre Aqueles dois, diz que é excelente, fala da "dignidade e tratamento delicado dado ao tema". Lembro da crítica de Sérgio Augusto, de como fez mal por dentro. Já passou. 

Quando pergunto você-compreende-tudo-isso não estou subestimando você. Ah, deus, perdoe. Não sinto agressividade nenhuma em relação a você. E gosto das tuas histórias. E gosto da tua pessoa. Dá um certo trabalho decodificar todas as emoções contraditórias, confusas, soma-las, diminui-las e tirar essa síntese numa palavra só, esta: gosto. 

Dormi umas três horas e acordei ouvindo Quereres, de Caetano. Repeti, várias vezes, cada vez mais alto. Ah, bruta flor do querer. Discutia tanto com Ana Cristina César, antes que ela acolhesse a morte (acertadamente? Me pergunto até hoje, nunca sei responder): nossa necessidade fresca & neurótica de elaborar sofrimentos e rejeições e amarguras e pequenos melodramas cotidianos para depois sentar Atormentado & Solitário para escrever Belos Textos Literários. 

O escritor é uma das criaturas mais neuróticas que existem: ele não sabe viver ao vivo, ele vive através de reflexos, espelhos, imagens, palavras. O não-real, o não-palpável. Você me dizia "que diferença entre você e um livro seu". Eu não sou o que escrevo ou sim, mas de muitos jeitos. Alguns estranhos. 

Não há nenhum subtexto nisto que te escrevo. Não acho bonito que a gente se disperse assim, só isso. Encontre, desencontre e nada mais, nunca mais, é urbano demais - e eu nasci praticamente no campo, até os 15 anos quase no campo, céu e campo. Não sei se a gente pode continuar amigo. Não sei se em algum momento cheguei a ver você completamente como Outra pessoa, ou, o tempo todo, como Uma Possibilidade de Resolver Minha Carência. Estou tentando ser honesto e limpo. Uma possibilidade que eu precisava devorar ou destruir. Porque até hoje não consegui conquistar essa disciplina, essa macrobiótica dos sentimentos, essa frugalidade das emoções. 

Fico tomado de paixão. Há tempos não ficava. 

E toda essa peste, meu amigo. O que tem me mantido vivo hoje é a ilusão ou a esperança dessa coisa, "esse lugar confuso", o Amor um dia. E de repente te proíbem isso. Eu tenho me sentido muito mal vendo minha capacidade de amar sendo destroçada, proibida, impedida, aos 36 anos, tão pouco. Nem vivi nada ainda. E não sou sequer promíscuo. Dum romantismo não pós, mas pré todas as coisas - um romantismo que exige sexualidade e amor juntos. Nunca consegui. Uns vislumbres, visões do esplendor. Me pergunto se até a morte - será? Será amor essa carência e essa procura de amor, nunca encontrar a coisa? 

Das minhas heterossexualidades, dois filhos mortos, não ficou nada. Das minhas homossexualidades, esse pânico lento e uma solidão medonha. A hora é tão grave. 

Vim pegar energia. Sim. Preciso ver a terra, preciso do horizonte do pampa. Já começa a agir, meus ombros se soltaram. Olhei no espelho e aquela ruga entre as sombrancelhas se desfez. 

Não quero me tornar uma pessoa pesada, frustrada, amarga. Não vou me tornar assim. Então vacilo, escorrego e a mania de perfeição virginiana e a estética libriana no dia seguinte me dizem "que vergonha, que vergonha, que vergonha". 

Eu podia dizer que tinha/tínhamos bebido demais. Eu podia dizer que estava com tanto medo de vir para Porto Alegre. Eu podia contar a você dos meus últimos meses, oito, dez, doze horas por dia sobre a máquina de escrever, falando com quase ninguém. Sozinho, às vezes. Cantando também. Tudo isso, se eu te dissesse, talvez tivesse ajudado a doer menos em você. 

De repente me passa pela cabeça que você pode estar detestando tudo isso e achando longo e choroso e confuso. Mas eu não quero ter vergonha de nada que eu seja capaz de sentir. Tento não ficar assustado com a idéia que este tempo aqui é curto, que eu vou voltar a São Paulo e que talvez não veja mais você. Sei que não fico assustado demais, e enfrento, e reconstituo os pedaços, a gente enfeita o cotidiano - tudo se ajeita . Menos a morte. 

Mas de tudo isso, me ficaram coisas tão boas... Uma lembrança boa de você, uma vontade de cuidar melhor de mim, de ser melhor para mim e para os outros. De não morrer, de não sufocar, de continuar sentindo encantamento por alguma outra pessoa que o futuro trará, porque sempre traz, e então não repetir nenhum comportamento. Ser novo. 

Quando te falo da idade, quando te falo do tempo, e não tivemos tempo - queria te falar de Cronos, Saturno, da volta pelo Zodíaco quando se completa 30 anos. A tua estrela é muito clara, tem sinais bons na tua testa. Compreendo teu Plutão e a Lua encarcerados na casa XII - as emoções e paixões aprisionadas -, e também Urano, todo o impulso bloqueado. Na mesma casa, a do Karma, a dos espíritos que mais sofrem, tenho também o Sol, Mercúrio e Netuno. Somos muito parecidos, de jeitos inteiramente diferentes: somos espantosamente parecidos. E eu acho que é por isso que te escrevo, para cuidar de ti, para cuidar de mim - para não querer, violentamente não querer de maneira alguma ficar na sua memória, seu coração, sua cabeça, como uma sombra escura. Perdoe a minha precariedade e as minhas tentativas inábeis, desajeitadas, de segurar a maçã no escuro. Me queira bem. 

Estou te querendo muito bem neste minuto. Tinha vontade que você estivesse aqui e eu pudesse te mostrar muitas coisas, grandes, pequenas, e sem nenhuma importância, algumas. Fique feliz, fique bem feliz, fique bem claro, queira ser feliz. Você é muito lindo e eu tento te enviar a minha melhor vibração de axé. Mesmo que a gente se perca, não importa. Que tenha se transformado em passado antes de virar futuro. Mas que seja bom o que vier, para você, para mim.

Com cuidado, com carinho grande, te abraço forte e te beijo,

Caio F.

... 20 e poucos anos

A chamam de 'crise do quarto de vida'. Você começa a se dar conta de que seu círculo de amigos é menor do que há alguns anos.
Se dá conta de que é cada vez mais difícil vê-los e organizar horários por diferentes questões: trabalho, estudo, namorado(a) etc.. E cada vez desfruta mais dessa cervejinha que serve como desculpa para conversar um pouco.
As multidões já não são 'tão divertidas'... E as vezes até lhe incomodam. E você estranha o bem-bom da escola, dos grupos, de socializar com as mesmas pessoas de forma constante. Mas começa a se dar conta de que enquanto alguns eram verdadeiros amigos, outros não eram tão especiais depois de tudo.
Você começa a perceber que algumas pessoas são egoístas e que, talvez, esses amigos que você acreditava serem próximos não são exatamente as melhores pessoas que conheceu e que o pessoal com quem perdeu contato são os amigos mais importantes para você.
Ri com mais vontade, mas chora com menos lágrimas e mais dor. Partem seu coração e você se pergunta como essa pessoa que amou tanto pôde lhe fazer tanto mal. Ou, talvez, a noite você se lembre e se pergunte por que não pode conhecer alguém o suficiente interessante para querer conhecê-lo melhor.
Parece que todos que você conhece já estão namorando há anos e alguns começam a se casar. Talvez você também, realmente, ame alguém, mas, simplesmente, não tem certeza se está preparado(a) para se comprometer pelo resto da vida.
Os rolês e encontros de uma noite começam a parecer baratos e ficar bêbado(a) e agir como um(a) idiota começa a parecer, realmente, estúpido. Sair três vezes por final de semana lhe deixa esgotado(a) e significa muito dinheiro para seu pequeno salário.
Olha para o seu trabalho e, talvez, nao esteja nem perto do que pensava que estaria fazendo. Ou, talvez, esteja procurando algum trabalho e pensa que tem que começar de baixo e isso lhe dá um pouco de medo. Dia a dia, você trata de começar a se entender, sobre o que quer e o que nao quer.
Suas opiniões se tornam mais fortes. Vê o que os outros estão fazendo e se encontra julgando um pouco mais do que o normal, porque, de repente, você tem certos laços em sua vida e adiciona coisas a sua lista do que é aceitável e do que não é.
Às vezes, você se sente genial e invencível, outras... Apenas com medo e confuso(a). De repente, você trata de se obstinar ao passado, mas se dá conta de que o passado se distancia mais e que não há outra opção a não ser continuar avançando.
Você se preocupa com o futuro, empréstimos, dinheiro... E com construir uma vida para você. E enquanto ganhar a carreira seria grandioso, você não queria estar competindo nela. O que, talvez, você não se dê conta, é que todos que estamos lendo esse textos nos identificamos com ele.
Todos nós que temos 'vinte e poucos' e gostaríamos de voltar aos 15-16 algumas vezes. Parece ser um lugar instável, um caminho de passagem, uma bagunça na cabeça... Mas TODOS dizem que é a melhor época de nossas vidas e não temos que deixar de aproveitá-la por causa dos nossos medos... Dizem que esses tempos são o cimento do nosso futuro.
Parece que foi ontem que tínhamos 16... Então, amanha teremos 30?!?! Assim tão rápido?!?! FAÇAMOS VALER NOSSO TEMPO... QUE ELE NAO PASSE!

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Perfil I

"Finjo calma e sigo em frente. Não tenho dificuldade em fazer escolhas, mas nem sempre faço as escolhas certas, nem por isso espero que o mundo pare de girar pra juntar meus caquinhos e me renovar, reinventar. Não espero aplausos e muitas vezes me recolho à solidão. Defendo minhas opiniões e luto pelo que quero. Respeito minha essência, "sou mulher com cara de menina... E vice-versa”. Sou a que chora e sorri com a mesma facilidade. Palhaça e séria, sensata e pateta, ás vezes louca, no bom sentido da palavra, ou até mesmo insana... á vezes a única saída é perder o controle. Sou intensidade, porque "água morna não serve nem pra fazer chá". Sou inconstante vivo de fins e recomeços. E é sempre um novo segredo um novo lugar, gosto de movimento. Olhos nos olhos, faço promessas. Vivo sonhando, cabeça de vento, meus sonhos voam por qualquer lugar, vou fugir desse marasmo pra procurar."

sábado, 13 de novembro de 2010

Sempre é preciso saber quando uma etapa chega ao final...
Se insistirmos em permanecer nela mais do que o tempo necessário, perdemos a alegria e o sentido das outras etapas que precisamos viver.
Encerrando ciclos, fechando portas, terminando capítulos. Não importa o nome que damos, o que importa é deixar no passado os momentos da vida que já se acabaram.
Foi despedida do trabalho? Terminou uma relação? Deixou a casa dos pais? Partiu para viver em outro país? A amizade tão longamente cultivada desapareceu sem explicações?
Você pode passar muito tempo se perguntando por que isso aconteceu....
Pode dizer para si mesmo que não dará mais um passo enquanto não entender as razões que levaram certas coisas, que eram tão importantes e sólidas em sua vida, serem subitamente transformadas em pó. Mas tal atitude será um desgaste imenso para todos: seus pais, seus amigos, seus filhos, seus irmãos, todos estarão encerrando capítulos, virando a folha, seguindo adiante, e todos sofrerão ao ver que você está parado.
Ninguém pode estar ao mesmo tempo no presente e no passado, nem mesmo quando tentamos entender as coisas que acontecem conosco.
O que passou não voltará: não podemos ser eternamente meninos, adolescentes tardios, filhos que se sentem culpados ou rancorosos com os pais, amantes que revivem noite e dia uma ligação com quem já foi embora e não tem a menor intenção de voltar.
As coisas passam, e o melhor que fazemos é deixar que elas realmente possam ir embora...
Por isso é tão importante (por mais doloroso que seja!) destruir recordações, mudar de casa, dar muitas coisas para orfanatos, vender ou doar os livros que tem.
Tudo neste mundo visível é uma manifestação do mundo invisível, do que está acontecendo em nosso coração... e o desfazer-se de certas lembranças significa também abrir espaço para que outras tomem o seu lugar.
Deixar ir embora. Soltar. Desprender-se.
Ninguém está jogando nesta vida com cartas marcadas, portanto às vezes ganhamos, e às vezes perdemos.
Não espere que devolvam algo, não espere que reconheçam seu esforço, que descubram seu gênio, que entendam seu amor. Pare de ligar sua televisão emocional e assistir sempre ao mesmo programa, que mostra como você sofreu com determinada perda: isso o estará apenas envenenando, e nada mais.
Não há nada mais perigoso que rompimentos amorosos que não são aceitos, promessas de emprego que não têm data marcada para começar, decisões que sempre são adiadas em nome do "momento ideal".
Antes de começar um capítulo novo, é preciso terminar o antigo: diga a si mesmo que o que passou, jamais voltará!
Lembre-se de que houve uma época em que podia viver sem aquilo, sem aquela pessoa - nada é insubstituível, um hábito não é uma necessidade.
Pode parecer óbvio, pode mesmo ser difícil, mas é muito importante.

Encerrando ciclos. Não por causa do orgulho, por incapacidade, ou por soberba, mas porque simplesmente aquilo já não se encaixa mais na sua vida.
Feche a porta, mude o disco, limpe a casa, sacuda a poeira. Deixe de ser quem era, e se transforme em quem é. Torna-te uma pessoa melhor e assegura-te de que sabes bem quem és tu próprio, antes de conheceres alguém e de esperares que ele veja quem tu és..
E lembra-te:
Tudo o que chega, chega sempre por alguma razão

-Fernando Pessoa

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Sente-se em outra cadeira, no outro lado da mesa. Mais tarde, mude de mesa.
Quando sair, procure andar pelo outro lado da rua. Depois, mude de caminho, ande por outras ruas, calmamente, observando com atenção os lugares por onde você passa.
Tome outros ônibus.
Mude por uns tempos o estilo das roupas. Dê os seus sapatos velhos. Procure andar descalço alguns dias. Tire uma tarde inteira para passear livremente na praia, ou no parque, e ouvir o canto dos passarinhos.
Veja o mundo de outras perspectivas.
Abra e feche as gavetas e portas com a mão esquerda. Durma no outro lado da cama... Depois, procure dormir em outras camas. Assista a outros programas de tv, compre outros jornais... leia outros livros.
Viva outros romances.
Não faça do hábito um estilo de vida. Ame a novidade. Durma mais tarde. Durma mais cedo.
Aprenda uma palavra nova por dia numa outra língua.
Corrija a postura.
Coma um pouco menos, escolha comidas diferentes, novos temperos, novas cores, novas delícias.
Tente o novo todo dia. O novo lado, o novo método, o novo sabor, o novo jeito, o novo prazer, o novo amor.
A nova vida. Tente. Busque novos amigos. Tente novos amores. Faça novas relações.
Almoce em outros locais, vá a outros restaurantes, tome outro tipo de bebida, compre pão em outra padaria.
Almoce mais cedo, jante mais tarde ou vice-versa.
Escolha outro mercado... outra marca de sabonete, outro creme dental... Tome banho em novos horários.
Use canetas de outras cores. Vá passear em outros lugares.
Ame muito, cada vez mais, de modos diferentes.
Troque de bolsa, de carteira, de malas, troque de carro, compre novos óculos, escreva outras poesias.
Jogue os velhos relógios, quebre delicadamente esses horrorosos despertadores.
Abra conta em outro banco. Vá a outros cinemas, outros cabeleireiros, outros teatros, visite novos museus.
Mude.
Lembre-se de que a Vida é uma só. E pense seriamente em arrumar um outro emprego, uma nova ocupação, um trabalho mais light, mais prazeroso, mais digno, mais humano.
Se você não encontrar razões para ser livre, invente-as. Seja criativo.
E aproveite para fazer uma viagem despretensiosa, longa, se possível sem destino. Experimente coisas novas. Troque novamente. Mude, de novo. Experimente outra vez.
Você certamente conhecerá coisas melhores e coisas piores do que as já conhecidas, mas não é isso o que importa.
O mais importante é a mudança, o movimento, o dinamismo, a energia. Só o que está morto não muda !
Repito por pura alegria de viver: a salvação é pelo risco, sem o qual a vida não
vale a pena!

-Clarice Lispector

sábado, 6 de novembro de 2010

Vasculhando nas memórias algum assunto, encontrei a carta que eu rabisquei na capa de um livro: “pra você”, era o destinatário. Não sei por que não mandei, talvez não quisesse passar a limpo o passado. Em letras garrafais eu te dizia: “acertei o caminho não porque segui as setas, mas porque desrespeitei todas as placas de aviso”. E achei curioso eu usar essa metáfora sem nem ao certo saber o que queria te dizer com isto. E depois de repousadas aquelas palavras eu percebi quanta coisa eu escrevi pra você, querendo dizer pra mim. Porque eu jamais chegaria aonde cheguei se só andasse em linha reta. Tive que voltar atrás, andar em círculos, perder dias, perder o rumo, perder a paciência e me exaurir em tentativas aparentemente inúteis pra encontrar um quase endereço, uma provável ponte: a entrada do encontro.Você tão ocupado com seus mapas, tão equipado com sua bússola, demorou tanto, fez sinais de fumaça e não veio. Você simplesmente não veio. Mas me ensinou a intuir caminhos certos, a confiar nos passos, a desconfiar dos atalhos. Porque eu estava do outro lado e só. Sem amparo. Mas caminhava. E você estava absolutamente equipado com seu peso. E impedido de andar por seus medos.

-Marla de Queiroz

domingo, 31 de outubro de 2010

Quando me amei de verdade, compreendi que em qualquer circunstância, eu estava no lugar certo, na hora certa, no momento exato.
E então, pude relaxar.
Hoje sei que isso tem nome... Auto-estima.
Quando me amei de verdade, pude perceber que minha angústia, meu sofrimento emocional, não passa de um sinal de que estou indo contra minhas verdades.
Hoje sei que isso é...Autenticidade.
Quando me amei de verdade, parei de desejar que a minha vida fosse diferente e comecei a ver que tudo o que acontece contribui para o meu crescimento.
Hoje chamo isso de... Amadurecimento.
Quando me amei de verdade, comecei a perceber como é ofensivo tentar forçar alguma situação ou alguém apenas para realizar aquilo que desejo, mesmo sabendo que não é o momento ou a pessoa não está preparada, inclusive eu mesmo.
Hoje sei que o nome disso é... Respeito.
Quando me amei de verdade comecei a me livrar de tudo que não fosse saudável... Pessoas, tarefas, tudo e qualquer coisa que me pusesse para baixo. De início minha razão chamou essa atitude de egoísmo.
Hoje sei que se chama... Amor-próprio.
Quando me amei de verdade, deixei de temer o meu tempo livre e desisti de fazer grandes planos, abandonei os projetos megalômanos de futuro.
Hoje faço o que acho certo, o que gosto, quando quero e no meu próprio ritmo.
Hoje sei que isso é... Simplicidade.
Quando me amei de verdade, desisti de querer sempre ter razão e, com isso, errei muitas menos vezes.
Hoje descobri a... Humildade.
Quando me amei de verdade, desisti de ficar revivendo o passado e de preocupar com o futuro. Agora, me mantenho no presente, que é onde a vida acontece.
Hoje vivo um dia de cada vez. Isso é... Plenitude.
Quando me amei de verdade, percebi que minha mente pode me atormentar e me decepcionar. Mas quando a coloco a serviço do meu coração, ela se torna uma grande e valiosa aliada.
Tudo isso é... Saber viver!!!

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Ah, desisti, vc não vai esquecer. O tempo vai passar, mas esquecimento total não existe e vc sabe muito bem disso. Na verdade é até necessário que essa lembrança, essa chama permaneça sempre acesa dentro de vc, mesmo que branda, talvez ás vezes quase imperceptível. É o tempo faz isso mesmo, torna as coisas mais suaves, não tem como evitar, mas cá entre nós, vc não quer perder esse encanto que molha teus olhos sem motivo ao mesmo tempo que te faz sentir-se incrivelmente viva.

Letícia Almeida

segunda-feira, 25 de outubro de 2010


Há alguns dias, Deus — ou isso que chamamos assim, tão descuidadamente, de Deus —, enviou-me certo presente ambíguo: uma possibilidade de amor. Ou disso que chamamos, também com descuido e alguma pressa, de amor. E você sabe a que me refiro.

Antes que pudesse me assustar e, depois do susto, hesitar entre ir ou não ir, querer ou não querer — eu já estava lá dentro. E estar dentro daquilo era bom. Não me entenda mal — não aconteceu qualquer intimidade dessas que você certamente imagina. Na verdade, não aconteceu quase nada. Dois ou três almoços, uns silêncios. Fragmentos disso que chamamos, com aquele mesmo descuido, de “minha vida”. Outros fragmentos, daquela “outra vida”. De repente cruzadas ali, por puro mistério, sobre as toalhas brancas e os copos de vinho ou água, entre casquinhas de pão e cinzeiros cheios que os garçons rapidamente esvaziavam para que nos sentíssemos limpos. E nos sentíamos.

Por trás do que acontecia, eu redescobria magias sem susto algum. E de repente me sentia protegido, você sabe como: a vida toda, esses pedacinhos desconexos, se armavam de outro jeito, fazendo sentido. Nada de mal me aconteceria, tinha certeza, enquanto estivesse dentro do campo magnético daquela outra pessoa. Os olhos da outra pessoa me olhavam e me reconheciam como outra pessoa, e suavemente faziam perguntas, investigavam terrenos: ah você não come açúcar, ah você não bebe uísque, ah você é do signo de Libra. Traçando esboços, os dois. Tateando traços difusos, vagas promessas.

Nunca mais sair do centro daquele espaço para as duras ruas anônimas. Nunca mais sair daquele colo quente que é ter uma face para outra pessoa que também tem uma face para você, no meio da tralha desimportante e sem rosto de cada dia atravancando o coração. Mas no quarto, quinto dia, um trecho obsessivo do conto de Clarice Lispector “Tentação” na cabeça estonteada de encanto: “Mas ambos estavam comprometidos. Ele, com sua natureza aprisionada. Ela, com sua infância impossível”. Cito de memória, não sei se correto. Fala no encontro de uma menina ruiva, sentada num degrau às três da tarde, com um cão basset também ruivo, que passa acorrentado. Ele pára. Os dois se olham. Cintilam, prometidos. A dona o puxa. Ele se vai. E nada acontece.

De mais a mais, eu não queria. Seria preciso forjar climas, insinuar convites, servir vinhos, acender velas, fazer caras. Para talvez ouvir não. A não ser que soprasse tanto vento que velejasse por si. Não velejou. Além disso, sem perceber, eu estava dentro da aprendizagem solitária do não-pedir. Só compreendi dias depois, quando um amigo me falou — descuidado, também — em pequenas epifanias. Miudinhas, quase pífias revelações de Deus feito jóias encravadas no dia-a-dia.

Era isso – aquela outra vida, inesperadamente misturada à minha, olhando a minha opaca vida com os mesmos olhos atentos com que eu a olhava: uma pequena epifania. Em seguida vieram o tempo, a distância, a poeira soprando. Mas eu trouxe de lá a memória de qualquer coisa macia que tem me alimentado nestes dias seguintes de ausência e fome. Sobretudo à noite, aos domingos. Recuperei um jeito de fumar olhando para trás das janelas, vendo o que ninguém veria.

Atrás das janelas, retomo esse momento de mel e sangue que Deus colocou tão rápido, e com tanta delicadeza, frente aos meus olhos há tanto tempo incapazes de ver: uma possibilidade de amor. Curvo a cabeça, agradecido. E se estendo a mão, no meio da poeira de dentro de mim, posso tocar também em outra coisa. Essa pequena epifania. Com corpo e face. Que reponho devagar, traço a traço, quando estou só e tenho medo. Sorrio, então. E quase paro de sentir fome.


-Caio Fernando Abreu

domingo, 10 de outubro de 2010

"A gente finge que arruma o guarda-roupa, arruma o quarto, arruma a bagunça. Tira aquele tanto de coisa que não serve, porque ocupar espaço com coisas velhas não dá. As coisas novas querem entrar, tanta coisa bonita nas lojas por aí. Mas a gente nunca tira tudo. Sempre as esconde aqui, esconde ali, finge para si mesmo que ainda serve. A gente sabe. Que ta curta, pequeno, apertado. É que a gente queria tanto. Tanto.
Acredito que arrumar a bagunça da vida é como arrumar a bagunça do quarto. Tirar tudo, rever roupas e sapatos, experimentar e ver o que ainda serve, jogar fora algumas coisas, outras separar para doação. Isso pode servir melhor para outra pessoa.
Hora de deixar ir. Alguém precisa mais do que você. Se livrar. Deixar para trás. Algumas coisa não servem mais. Você sabe. Chega. Porque guardar roupa velha dentro da gaveta é como ocupar o coração com alguém que não lhe serve. Perca de espaço, tempo, paciência e sentimento. Tem tanta gente interessante por aí querendo entrar. Deixa. Deixa entrar: na vida, no coração, na cabeça."

- Caio Fernando Abreu

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Depois Daquela Noite

     Saber quando é hora de parar quando os limites são mais fluidos que o ar. Tirar da luz do dia a força pra continuar. Lembrar sempre de um olhar doce e cansado quando sentir medo. Pegar o telefone e discar aqueles números e com a voz tremula fazer a tal pergunta tão temida, será o convite pros fantasmas irem embora. Sonhar e acreditar com todas as forças, lutar com toda coragem, sem ferir ninguém. Criar raízes sem ser estanque. Saber que o mundo cabe aqui no meu coração, e onde eu tiver minha mente em paz será sempre o meu  lar.
    Que sempre existam noites frias e ruas desertas pra que meus medos possam se perder. Que sempre existam surpresas... Hoje não tenho palavras pra expressar minha gratidão, se eu me esforçar pra exprimir o que sinto acabarei me perdendo no emaranhado de dúvidas que isso traz. Por que não dá mais pra acreditar que a vida é um grande acaso, quando você se encontra no último lugar onde imaginaria pisar, quando aquelas pessoas que você sempre imaginou conhecer muito bem e que eram também indiferentes, se mostram verdadeiros baús recheados de tesouros. Quando alguém te convida pra um suco, quando você planejava cortar os pulsos.
    É estranho ser tocada tão lá dentro, ser quase afrontada com tanta simplicidade. Hoje entendo a necessidade de enterrar meus mortos e guardar deles apenas as boas lembranças e guardar só pra mim. A vida ás vezes dói, mas é preciso estar a todo momento preparado, primeiro somos postos a prova pra depois se poder tirar daí uma lição. Não há injustiça quando há liberdade, mas ser livre é coisa muito séria, você poder viver sem regras, mas pra isso é necessário muito equilíbrio e responsabilidade, mesmo que você não queira justificar seus atos, assuma-os. Voar é um estado de espírito e se te disserem que você é louco, que mal tem ser louco quando se é acima de tudo feliz? E vem cá, me diz uma coisa, o que é loucura? É acreditar nas pessoas? É confiar no ser humano? É brincar na chuva, andar descalço, nadar pelado? É entrar em contato? É derrubar os muros e construir pontes? É estar a todo momento pronto pra ouvir, pronto pra aprender, sim, todo mundo tem algo a ensinar, todo mundo tem sempre algo a aprender, me diz isso é loucura? Por que mais parece que o normal é ser superficial, e se for assim, deixa eu enlouquecer, por que pra mim só vale a pena tirar os pés do chão se for pra voar bem alto.

Letícia Almeida (13.09.2010)

sábado, 25 de setembro de 2010

"Hoje levantei cedo pensando no que tenho a fazer antes que o relógio marque meia noite. É minha função escolher que tipo de dia vou ter hoje. Posso reclamar porque está chovendo ou agradecer às águas por lavarem a poluição. Posso ficar triste por não ter dinheiro ou me sentir encorajado para administrar minhas finanças, evitando o desperdício. Posso reclamar sobre minha saúde ou dar graças por estar vivo. Posso me queixar dos meus pais por não terem me dado tudo o que eu queria ou posso ser grato por ter nascido. Posso reclamar por ter que ir trabalhar ou agradecer por ter trabalho. Posso sentir tédio com o trabalho doméstico ou agradecer a Deus. Posso lamentar decepções com amigos ou me entusiasmar com a possibilidade de fazer novas amizades. Se as coisas não saíram como planejei posso ficar feliz por ter hoje para recomeçar. O dia está na minha frente esperando para ser o que eu quiser. E aqui estou eu, o escultor que pode dar forma. Tudo depende só de mim."
-Charles Chaplin

domingo, 19 de setembro de 2010

"Em luta, meu ser se parte em dois. Um que foge, outro que aceita. O que aceita diz: não. Eu não quero pensar no que virá: quero pensar no que é. Agora. No que está sendo. Pensar no que ainda não veio é fugir, buscar apoio em coisas externas a mim, de cuja consistência não posso duvidar porque não a conheço. Pensar no que está sendo, ou antes, não, não pensar, mas enfrentar e penetrar no que está sendo é coragem. Pensar é ainda fuga: aprender subjetivamente a realidade de maneira a não assustar. Entrar nela significa viver."

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Não dessa vez não é tão simples, não é só ligar o foda-se e ser feliz, dessa vez a vida ta exigindo de mim toda uma reeducação, uma mudança interna e profunda pra mais tarde, quem sabe, se pensar em mais uma mudança externa e então em fim poder mudar o que há ao meu redor. Vou preparada, bem preparada como pra toda boa guerra, fácil nessa vida nada é, mas dessa vez tenho os objetivos bem traçados, uma consciência mais aprofundada e mesmo que ainda muito confusa uma necessidade enorme de viver fazendo algum sentido pra mim, uma necessidade de criar raízes mesmo que provisoriamente, redescobrir tudo o que um dia fiz questão de abandonar e voltar pro lugar onde os cortes foram abertos é o único lugar talvez que guarde minha cura. E sim, eu quero me curar de toda essa loucura, toda essa inconstância, essa busca por um prazer mórbido, efêmero e vulgar. Eu quero voltar a olhar o por do sol sem uma lágrima pra me embasar a visão, olhar a lua ao lado de alguém e saber que nada eterno, mas que um momento pode ser inesquecivelmente belo, sem promessas e sem amaras. Quero ler mais uma vez numa tardizinha chuvosa O Pequeno Príncipe, O Mundo de Sofia ou uma carta de alguém tão romântico quanto eu a ponto de ainda escrever cartas e que mesmo que essa carta não seja de amor, que ofereça algum conforto para a alma. Quero ter amigos de chuva e de sol, de bebedeiras de musicas velhas, de rua augusta de porto da barra, ou simplesmente do barzinho ali da esquina, amigos que sejam tão descobridores como eu e que me ajudem a saciar essa sede de mundo, amigos pra colecionar fotos e cartões postais. Mas eu quero também tardes de domingo pra ir ao cinema sozinha ver um filminho água com açúcar. Quero dias inteiros em frente ao mar, quero estradas e quero curvas, montanhas, calmarias e também, tudo mais que possa fazer o coração disparar. Quero dar um novo sentido a toda saudade que sinto, reciclar os sentimentos, e jogar fora o que não prestar pra mais nada, fazer uma fogueira numa noite de lua cheia e deixar arder. Quero saber que gosto tem o prazer do reencontro, quero dividir experiências me alegrar com as descobertas alheias... Num primeiro momento tenho que deixar de ser tão egoísta, racionalista, individualista. Encontrar um equilíbrio, controlar toda essa fúria, aceitar sem fricotes os nãos, dizer menos nãos pra vida. É necessário além de todo controlar essa impulsividade de ariscar de mais, de deixar o coração tão solto, de mergulhar de cabeça em ilusões e sonhos que não são meus. Paradoxalmente é primordialmente necessário me entregar por inteiro quando resolver dar um passo, aceitar o amor de peito aberto e cara limpa reconhecendo os riscos mas saboreando o pleno prazer de se entregar. Levar a vida menos a sério, sorrir mais, cantar mais, dançar mais, voar mais.

Letícia Almeida

sábado, 4 de setembro de 2010

Confederação Helvética

A Suíça pra mim continua sendo o lugar para onde vou só pra não passar o Natal sozinha.
Só pra me acertar com meus fantasmas. Só, e nesse só, nem mas a loucura vai me fazer companhia.
É o lugar pra onde vou, quando o resto do mundo se torna inóspito.
É o lugar que faz, fazer sentido o caledário.
É o lugar que reúne céus e terra e onde não há perigo quando o bem e o mal resolvem se dar as mãos.
É o pesadelo que me serve de refúgio, é o sonho sempre interrompido.
É a mais plena alegria quando raia o sol, é o eterno inverno e tormentos.
É a boneca nova, a música velha.
É a criança sem infância, a selva de pedra abençoada.
O outro lado do oceano, a terra firme.
É o porto seguro, o farol em ruínas.
Os nervos em frangalho, o medo constante, o frio na barriga.
É o tesouro roubado, é o que se tranca à sete chaves.
É a história mal contada, a verdade inventada.
É a tradução mas fiel do que é saudade.
É as noites de luar, a conversa de botas batidas.
É o trem perdido, é a hora errada.
São poucos lugares e muitos nomes.
Janela fechada, porta aberta.
O coração de pedra lá de Basileia, sangrando em verde e amarelo.
É o que arde e queima, é o grito preso na garganta.
É despedida e recomeço.
É esperança e desafio.
É pouca vida pra tanta lágrima.
É pouca poesia pra tanta prosa.

Letícia Almeida

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Agora o avesso, ou quem sabe o lado direito

Te conhecer tá sendo simplesmente uma delícia, é uma paz, não aquela paz chata sem cor de tarde de domingo sabe? Ah, sabe, é como se eu tivesse encontrado aquele botãozinho que faz com que as coisas ganhem cor. Vc com esse seu jeito de moleque que sempre tem uma boa palavra à dizer, esse seu olhar de quem pergunta, deixa? Ah, eu deixo sim... Ah, vc... uma tarde de domingo sem internet e uma par de patins... “Quem diria que viver daria nisso.” Calma, não se preocupe eu tenho mania de por poesia em tudo, absolutamente tudo viu?

 Dar e deixar me trouxe pra tão mais perto de mim... Te dar um pouco e dar a mim a chance de deixar alguma coisa boa entrar... Me redescobrir, aliás vem cá, algum anjo te mandou pra me fazer lembrar dos dias que eu cosidero até então os melhores da minha vida? Ah, pode parecer besteira, mas sabe, aquelas lambrancinhas, aqule “lugarzinho” vc sabe né? Eu tinha me esquecido, toda a euforia, a ternura e as descobertas que deixei ali naquele “lugarzinho”, é engraçado, parece clichê, mas eu tinha me esquecido. Um momento legal, faz lembrar algo especial, e tudo fica bem mais lindo...

 É tudo bem, eu gosto de você... poxa, não doeu! É não doeu dizer que gosto de alguém, gostando pelo prazer de gostar e não poque deu tempo de gostar. Ah, eu não quero mais nada, logo eu que sempre fui barco sem amaras, hoje me sinto cais, então barquinho, “passa por aqui e sorri”! Passa, se quiser voltar, volta, mas passa, eu sou cais, outros barquinhos vão passar. Mas mesmo quando passar vc vai ficar na listas de pessoas pra quem eu ligo quando a felicidade é grande demais pra caber só em mim... Aliás, hoje eu joguei fora minhas listas... Então vc vai ficar aqui, talvez mais aqui no fundo, talvez fazendo parte dessa enorme alegria... talvez, mas hoje eu joguei fora as listas e apesar dos nãos, hoje me sinto feliz.

Letícia Almeida
"Cansei de quem gosta como se gostar fosse mais uma ferramenta de marketing. Gostar aos poucos, gostar analisando, gostar duas vezes por semana, gostar até as duas e dezoito. Cansei de gente que gosta como pensa que é certo gostar. Gostar é essa besta desenfreada mesmo. E não tem pensar. E arrepia o corpo inteiro, mas você não sabe se é defesa para recuar ou atacar. Eu eu gosto de você porque gostar não faz sentido. (...)Eu não faço a menor idéia de como esperar você me querer. porque se eu esperar, talvez eu não te queira mais.(...)porque cansei dessa gente que manda ter mais calma.(...) E me diz que eu preciso de uma camisa de força. Se você puder sofrer comigo a loucura que é estar vivo. se você puder passar a noite em claro comigo de tanta vontade de viver esse dia sem esperar o outro, se você puder esquecer a camisa de força e me enrroscar no seu corpo para que duas forças loucas tragam algum aquilibrio. Se você puder ser alguém de quem se espera algo, afinal, é uma grande mentira viver sozinho, permita-se. Eu só queria alguém pra vencer comigo esses dias terrivelmente chatos."
-Tati Bernardi

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Hoje não

Você tem sonhos? Quais são?
Você tem medo? Do quê?
O que te faz sentir?
O que te faz sangrar?
Qual é a ferida que dói mais?

 Não, eu não quero saber o que você fez semana passada, não quero saber o nome dos teus amigos. Não quero que você esqueça seu olhar docemente pousado no meu... Não, não quero seu sorriso mais gentil, não quero seu gesto mais honesto, não quero seu toque, seu carinho sua amizade, não quero a calmaria dos teus braços, me esquecer no teu abraço, achar que o mundo vale a pena quando estou perto do teu calor. Não quero teus elogios, por favor, não tente fazer com que eu me sinta bem. Não, eu não quero teus conselhos, quem te deu o direito de tentar me fazer bem? Não quero tua ligação, que chega sempre na melhor hora. Não quero tua calmaria, que revira todo o meu mundinho. Não quero ouvir tuas músicas, que ressuscitam meus fantasmas, aqueles que um dia foram meus melhores companheiros, mas que há muito andam emudecidos, é, são aqueles que tentam me mostrar a doçura de viver, a leveza de ser, sem se importar, são aqueles fantasminhas camaradas que me fazem chorar olhando a lua e achar que vale a pena a creditar em acasos, vale a pena acreditar em pessoas, vale a pena acreditar em momentos certos, aprendizado, amadurecimento... Ah! Eu não quero nada disso. Por que não? Por que eu sou confusão, não vem dizer que não, você ainda não viu nada, nem quero que veja. Não, dessa vez eu não quero revelar meu lado mais sombrio, aquele lado transgressor do qual eu tanto me orgulho, meu defeito que mantém meu edifício interior de pé. Não, não queira, se poupe. Então por favor, se afaste, por que não sei fazer isso, seja duro, eu sou assim mesmo, covarde. Sou abismo, sagitário, centauro, não sou de rodeio, se eu me apaixonar por você vou arrumar um jeito de te ferir, acertar feito flecha a única beleza que resta, se alguma beleza restar. Filha de Quíron com seu arco apontado para o corpo do escorpião, só por vingança. Poderei também ser sua cura, caso saiba me domar, caso contrário nem a eternidade da imortalidade fará a ferida fechar.

Letícia Almeida


"Algumas vezes eu fiz muito mal para pessoas que me amaram. Não é paranóia não. É verdade. Sou tão talvez neuroticamente individualista que, quando acontece de alguém parecer aos meus olhos uma ameaça a essa individualidade, fico imediatamente cheio de espinhos - e corto relacionamentos com a maior frieza, às vezes firo, sou agressivo e tal. É preciso acabar com esse medo de ser tocado lá no fundo. Ou é preciso que alguém me toque profundamente para acabar com isso."
-Caio Fernando Abreu